"O curso de aperfeiçoamento proposto tem como foco desenvolver nos participantes o conhecimento do Direito no Devir Sustentabilidade, articulando Filosofia e Arte como vias de reflexão e prática transformadora, em colaboração direta para a melhoria institucional.
Para tanto, será oferecida uma introdução ao Direito Micelial, abordando os desafios do Antropoceno e estimulando o desenvolvimento de habilidades para enfrentar as rápidas transformações sociais que já se apresentam e que se intensificarão nos próximos anos.
O curso situará o consenso e a crise do pacto social como eixo central, auxiliando na adoção de atitudes proativas pelo Ministério Público, em especial no âmbito extrajudicial, de modo a fortalecer a responsabilidade social da instituição e contribuir tanto para uma convivência pacífica quanto para a implementação dos Objetivos da Agenda 2030 da ONU. A partir da atuação do Ministério Público, inclusive, por meio de procedimentos estruturais, cujos resultados se mostrem positivos, impulsiona-se novos processos legislativos. Explorar-se-á a ação comunicativa, conforme Habermas, como fundamento para ampliar a percepção do fato social e do Zeitgeist, em um contexto em que as hierarquias estatais se flexibilizam e o binômio “dominantes/dominados” perde sentido.
O Ministério Público, nesse cenário, assume o papel de facilitador da expansão da consciência coletiva, fortalecendo a noção de Estado-súdito como representação viva e cotidiana. Habermas enfatiza a importância do consenso alcançado por meio do diálogo racional e da comunicação livre de coerção como fundamento para a legitimidade democrática e para a construção de um pacto social justo.
Os discentes serão sensibilizados para a cultura do processo comunicativo ideal, o qual pressupõe que os participantes possam deliberar de maneira transparente, igualitária e orientada para o entendimento mútuo, com a escuta ancestral e transgeracional, valorizando o conhecimento e a experiência acumulados pelos povos originários, visando à construção de normas legítimas. Todos devemos trabalhar para romper com o cenário contemporâneo marcado por colapsos, pela desgovernança do ser, pelo ruído comunicacional e pela atomização do indivíduo. Esse processo envolve o respeito às diferenças, o empoderamento das minorias e a efetiva busca por igualdade de gênero, raça e etnia. Fundamenta-se no axioma de que o desenvolvimento sustentável somente se realiza quando a expansão das capacidades humanas fundamentais encontra ressonância nas dimensões interiores de desenvolvimento propostas pelos Inner Development Goals (IDG) - Ser, Pensar, Relacionar-se, Cooperar e Agir - orientando, de forma concreta, a consecução dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O “simulacro” da comunicação (Baudrillard), a cegueira branca da superexposição digital e a ausência de escuta real comprometem a possibilidade de uma comunicação que leve ao consenso legítimo. Assim, a crise do pacto social pode ser entendida como uma falência do espaço público comunicativo, onde o diálogo é substituído por estratégias de poder, polarização e exclusão. A ascensão do intérprete sobre o legislador, a fragmentação das subjetividades e a hegemonia da violência institucionalizada dificultam a emergência de consensos efetivos, colocando em xeque a própria legitimidade das normas e instituições.
O Direito Micelial, nesse contexto, surge como resposta prática e simbólica para reconstruir o tecido comunicativo e relacional que sustenta o pacto social. Ao promover escuta ativa, cooperação sensível e solidariedade enraizada na interdependência, ele restabelece formas de entendimento mútuo que ultrapassam o modelo racionalista clássico, integrando dimensões afetivas, ecológicas e culturais. Em suma, repensar o Direito e a governança no Antropoceno, à luz da teoria habermasiana do consenso, implica reconhecer a urgência de espaços comunicativos autênticos para o diálogo e as práticas adequadas."